A escolha de Márcio França (PSB) para ocupar a vaga de vice na chapa de Fernando Haddad (PT) ao Governo de São Paulo está longe de ser apenas uma decisão estadual. Ela faz parte de um amplo acordo político costurado pelo presidente Lula para 2026 e tem reflexos diretos em Pernambuco. Se, de um lado, o PSB abre mão de protagonismo na principal disputa do país, do outro, recebe uma contrapartida considerada estratégica: o apoio exclusivo de Lula à candidatura de João Campos ao Governo de Pernambuco.
França não queria ser vice. Seu projeto político passava pela disputa ao Senado e, em determinados momentos, até pela possibilidade de encabeçar uma candidatura do PSB ao Palácio dos Bandeirantes. No entanto, diante da insistência de Lula e da necessidade de consolidar uma frente ampla contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o ex-governador paulista acabou aceitando o papel de vice de Haddad.
O problema é que essa vaga nunca foi considerada atraente. Isso porque Tarcísio chega à disputa como amplo favorito. Todas as pesquisas de intenção de voto divulgadas até o momento apontam o governador na liderança da corrida eleitoral, sempre com vantagem confortável sobre Haddad e os demais adversários. O cenário se tornou ainda mais favorável ao atual governador nas últimas semanas com a desistência das candidaturas de Kim Kataguiri (Missão) e Paulo Serra (PSDB), reduzindo a fragmentação do eleitorado de centro e fortalecendo a percepção de que Tarcísio pode até liquidar a disputa no primeiro turno, caso mantenha os atuais índices de intenção de voto. Nessas circunstâncias, poucos líderes políticos demonstravam entusiasmo em assumir uma vaga de vice numa chapa que larga em desvantagem.
Foi justamente nesse contexto que Márcio França aceitou ir para o sacrifício. A decisão, evidentemente, não foi gratuita. Na política, especialmente quando se trata de alianças nacionais, dificilmente um partido abre mão de um projeto estratégico sem receber algo em troca. E a compensação ao PSB parece ter vindo em Pernambuco.
Nas últimas semanas, um tema passou a preocupar profundamente os socialistas. Dentro do PT pernambucano e entre aliados do presidente Lula, crescia a defesa de um palanque duplo no Estado. A tese era simples: Lula pediria votos tanto para João Campos quanto para a governadora Raquel Lyra (PSD), preservando a boa relação institucional construída com ambos.
A ideia chegou a ganhar força após declarações de lideranças petistas e encontrou respaldo em setores do PT de Pernambuco, que defendiam uma posição de neutralidade do presidente na disputa estadual. Para o PSB, no entanto, essa possibilidade era inaceitável. Pernambuco é hoje o principal reduto eleitoral do partido no país, e João Campos tornou-se sua maior aposta para 2026, mesmo com pesquisas mostrando que a governadora é favorita a vencer a eleição, segundo as últimas pesquisas divulgadas.
Foi justamente nesse momento que o acordo nacional começou a ser desenhado. Ao aceitar que Márcio França abrisse mão de seu projeto para integrar a chapa de Haddad em São Paulo, o PSB fortaleceu o palanque petista no maior colégio eleitoral do Brasil. Em contrapartida, Lula consolidou seu compromisso de apoiar exclusivamente João Campos em Pernambuco, enterrando, na prática, a tese do palanque duplo defendida por uma ala do PT e por aliados que viam espaço para o presidente também pedir votos para Raquel Lyra.
Não se trata apenas de gratidão política. Trata-se da lógica das grandes alianças nacionais. O PT precisava do PSB em São Paulo para apresentar uma chapa competitiva contra Tarcísio. O PSB precisava de Lula integralmente ao lado de João Campos em Pernambuco, sem ambiguidades e sem dividir seu capital político entre dois candidatos ao Governo do Estado.
É evidente que muitos outros fatores influenciam essas decisões. Mas a sequência dos acontecimentos dificilmente pode ser vista como mera coincidência. Primeiro vieram as negociações em torno da vice de Haddad. Depois, a confirmação de Márcio França na chapa. Em seguida, a sinalização cada vez mais clara de que Lula estará integralmente no palanque de João Campos, apesar do deputado federal Túlio Gadelha afirmar que o apoio de Lula a João foi um ato apenas protocolar.
No fim das contas, o PSB fez um sacrifício importante em São Paulo ao deslocar um de seus principais quadros para uma disputa considerada extremamente difícil diante do favoritismo de Tarcísio de Freitas. Em troca, fortaleceu seu principal projeto eleitoral no país.
Se a política é a arte da negociação, o acordo parece evidente: Márcio França aceitou uma missão que poucos desejavam assumir, enquanto João Campos passou a contar com um ativo eleitoral que, até poucas semanas atrás, ainda estava em disputa nos bastidores: o apoio exclusivo do presidente Lula na eleição de Pernambuco.

