Para os menos atentos, a derrota do Brasil para Alemanha por 7X1 provocou as mais variadas reações e até as mais diferentes e esdrúxulas teorias conspiratórias. O que poucos sabem, e a mídia ufanista filiada a CBF não divulgou, não debateu e fez questão de esconder, pelo menos até o final da partida, é que o futebol alemão vive uma profunda revolução desde o ano 2000.
Naquele ano, a Alemanha disputou a Eurocopa centrada nos paradigmas que lhe fez uma das seleções mais competitivas da história: força física e disciplina tática, dentro desse modelo, que era a marca da seleção, conseguiu três títulos mundiais. No entanto, nesse ano ela saiu de forma humilhante eliminada na primeira fase do torneio. Diferente do que ocorre com os dirigentes da Seleção Brasileira quando essa é derroda, as autoridades alemãs foram a público, reconheceram os erros e tornaram a seleção e a política do futebol um assunto de Estado, uma questão de política pública para Alemanha.
Levando em conta a tradição e a cultura futebolística do país o plano era mais do que ambicioso: em uma década, a Alemanha voltaria a ser uma potência futebolística e ainda fazer com que a população voltasse a se encantar com esporte. Em Pouco mais de 12 anos, investiu cerca de US$ 1 bilhão em academias e principalmente em centros de treinamentos para crianças e jovens. Todos públicos, sua era função ensinar futebol, com uma receita e duas medidas: 50% habilidade, 50% e virgor físico.
Todo os programas, suas etapas e seus eixos ficaram aos cuidados únicos da DFB (associação alemã de futebol) que é essencialmente pública e não privada como a nossa CBF. Ligada diretamente ao governo, a associação alemã e dona de 366 centro futebolísticos. Desde 2001, crianças e jovens de 9 a 17 anos desenvolvem suas habilidades em academias e centros de treinamentos perto de suas casas, sem vínculos com clubes. Cercas de mil técnicos treinam 25 mil jovens.
Dentro dessa racionalidade, a DFB tratou de formar a Bundesliga, o campeonato nacional deles. Com uma política rigorosa, os clubes passaram a ter que enviar, três vezes ao ano, atestado de orçamento positivo. Quando aprovados, poderiam jogar, do contrário perdiam pontos, e os casos graves, nem entrariam em campo. Tal controle foi capaz de praticamente extinguir as dívidas dos clubes alemães. Dos 30 times da liga, só dois tem dívidas, e nenhuma escandalosa. Os gastos com salários não passam de 50 por cento das receitas dos clubes. No Brasil, entre 2011 e 2012 as dívidas dos 23 principais clubes aumentaram 17 por cento, atingindo R$ 4,72 bilhões.
Hoje, 14 anos depois os resultados são sólidos e visíveis, o Bayer e o Borrusia Dortmun foram finalistas da Champins Leagues de 2013. O campeonato do pais tem o melhor público do mundo de 45 mil pessoas por jogos (40 por cento mulheres). Só o Borussia Dortmund, tem média de 80 mil por jogo. É uma final de libertadores no antigo Maracanã a cada domingo.
No Brasil, que chamamos país do futebol, a média de público do brasileiro é de 15 mil pessoas. A da segunda divisão alemã é de 17 mil. Nossa média aliás, é só a 13º do mundo, atrás de China e Estados Unidos. Por uma lógica totalmente invertida caminha o futebol brasileiro, se pegarmos o exemplo DFB verificamos que é tudo que a CBF não é. A nossa Confederação Brasileira de Futebol é uma órganização privada, e não possui nenhum projeto de formação de jogadores além das seleções de base, que só pinçam jovens talentos que já treinam em algum clube.
Se existe simetria entre futebol e política no Brasil, está em sua estrutura viciada, oligárquica, nepotista clientelista e corrupta. Neste casos os patrocinadores (financiadores) determinam a regra do jogo e a perpetuação do modelo. Não existe projetos, programas, metas e muito menos ideias, mas sim os interesses de uma minoria que sobrevive e se reproduz a custa da exploração e alienação do povo.
Na Alemanha, o papel social do esporte é mais importante que qualquer troféu. O futebol e as políticas públicas construídas através dele é vista como uma ferramenta capaz de unir a nação, principalmente em um país que 1/5 dos 82 milhões de habitantes são imigrantes. Em um mundo que a intolerância, o racismo e as diferentes formas de xenofobia se expandem. A Alemanha mostra como futebol pode ser o ponto de partida para a fraternidade entre os povos.
Independente do resultado da final da copa e mesmo torcendo pela Argentina a Alemanha já levantou essa taça.
*Arnaldo Dantas é professor e analista político